quinta-feira, 30 de maio de 2013

CONTO ---

UMA AVENTURA EM MACEIÓ    ---


Aniversário da namorada. Festinha despretensiosa, poucos convidados, não mais de quinze. Exceto uma velha amiga, ele conhecia a todos. Essa amiga, Teca (Tereza), natural de Palmeira dos Índios o remetia a um contemporâneo do exército, também natural daquela cidade. Colega de alojamento, cama vizinha, trabalhava na cantina e um dia oferecera uma lata de ameixas em troca de uma cerveja. Aceitou e em seguida se arrependeu: aquilo cheirava a furto na cozinha. Nunca mais esqueceria do  fato.
A conversa entre as amigas esticava-se animada: antigos colegas, namorados, faculdade, por aí afora. Assim que surgiu uma chance, foram apresentados. A Silvia trouxe a amiga pela mão. “Este é  meu namorado... o Ryd”. Beijinhos e cumprimentos de praxe.
- Ryd é apelido...?
- Não. Ryd Naruj; homenagem a um poeta indiano. “E por que Palmeira dos Índios?”.
- Ora, “minha terra tem palmeiras...” e índios.
- Mas apenas uma palmeira...! e quantos índios ?
- Sabe que nunca havia pensado nisso ? Vou pesquisar. Tem um cigarro aí...?
- Deixei de fumar há mais de dez anos. Cigarro mata.
Enquanto a Silvia dava atenção à festa trocando CDs, providenciando gelo, essas coisas... o Ryd papeava com a Teca que  era danada de bonita. Toda clara; pele, cabelos e olhos  claros.
- Você bem poderia chamar-se Clara...
- É claro... retrucou sorrindo e apertando os olhinhos. “Eu e a Silvia somos velhas amigas, acho que desde a creche.  Depois nos perdemos por aí, e há três anos não nos víamos”.
- Maceió não é tão grande assim, disse ele. Para uma boa amizade é muito tempo, não acha?
- Creio que foram os casamentos, a gente acabou se afastando.
- Você é casada? Tão nova...
- Vinte e três anos...
- De casamento?  (rsrsrs)
- Ôxe...!   (rsrsrrs)
- Filhos?
- Felizmente,  não.
                                                                                                                                    

Alguns convidados se aproximaram, e ele chamou a namorada para dançar.
Mais tarde, na brincadeira que surgiu na sala, os casais trocando de parceiros... E quando deu por si dançava sozinho. Silvia e Teca papeando na cozinha. Cabeça meio zonza, teve certeza que o vinho não era dos melhores mas como havia iniciado com ele evitou misturar. O som rolando solto.
Passava das duas da manhã, os amigos se retiravam pois dia seguinte, ou melhor, pela manhã –segunda feira-,  iriam trabalhar. Agora, rendera-se e tomava um uísque  enquanto dançava solitariamente uma balada country. Silvia, no elevador, despedia-se de retardatários.
- Estou indo, queridos.. .Disse Teca.
Indagada se estava de carro, negou: “Nâo, ficou com o maridaão”.
- Preto –era o Ryd- “Dá uma carona para a Teca; de ônibus o filtro não chegará inteiro..."
A Silvia havia pedido  à  amiga para levar um velho filtro de cerâmica que seria doado à uma instituição beneficente. Frustrado, já que havia planejado passar a noite com ela, beijou-a e saiu atracado, literalmente, com o filtro.  Comemorariam o aniversário, em particular,  dia seguinte.
Saíram. Ao entrar no elevador é que se deu conta que o filtro era mais pesado do que parecia. Sua cabeça também. “Vinho e uísque, mistura demoníaca...”, lembrou-se do velho amigo Barão.
Dirigia devagar pela orla. Na carroceria da picape, o vaso tentava se equilibrar. Na cabine, o tema: relacionamentos, encontros, desencontros, encantos, desencantos. Teca enaltecia a Silvia: excelente mulher, bonita, alegre, resolvida. Resolvida? Muito ciumenta, corrigiu ela. Mas uma tremenda guerreira que numa precoce viuvez, filhos, faculdade completada com certo atraso tinha, no entanto, merecidamente, a sorte de encontrar um homem bacana como ele.
- Sim, você... um cara interessante, certo charme...
- ...Peralá. Já me viu de pé? Reparou na calva? Na barriguinha...? Ah, já sei... misturou vinho com uísque...
O rumo da prosa o incomodava. Lembrou-se de imediato do Raimundo. Há um ano, quando chegara a Maceió o seu amigo, alagoano, entre copos de cerveja e garfadas de buchada de bode, dissera-lhe:
- Ryd, você está gostando daqui...? Pretende ficar?
E diante de uma afirmativa: “Ótimo.  Preste muita atenção.  Não estamos no Rio,  estamos em Alagoas. Aqui não existem ladrões, exceto os graúdos. Vão presos? Não sei, só sei que desaparecem. Aqui não se briga no tapa. É buraco de faca ou tiro. Significa dizer que pode se divertir, dançar forró, namorar à vontade mas ouça bem: nunca com mulher casada. Aqui, marido corno não perdoa, mata. Ou manda matar”.
                                                                                                                                    

- ‘Tá pensando em quê ? Ela interrompe os conselhos do Raimundo.
- No filtro... será que esta inteiro?
- Está gostando dela, não esta...?
- Da Silvia? Me amarro naquela morena.
- Mas você teria coragem de dar uma saidinha com outra ? Só uma saída, sem compromisso?
“Isso é armação” Sua cabeça rodava um pouco mas ainda podia raciocinar. “Essa miserável esta mancomunada com a Silvia. Aquele papo  comprido na cozinha...”
- Não... Estou feliz com ela e não pretendo comprometer a relação.
A Teca continuava insistindo naquela conversa de cerca lourenço. De repente:
- Dá uma paradinha por aqui. A minha casa fica logo ali na esquina.
- Eu vou carregar ao filtro até lá?
- Não desconverse... Olhe, não estou nada a fim de ir dormir... Vamos tomar uma saideira. Só uma.
- Ô Teca... Não é correto ficar desfilando por aí com você, mulher casada, certo?
- Certo. Então vamos para um lugar sossegado... Quem sabe... um motel. Só pra conversar!
Aí o Ryd ficou preocupado. “Essa mulher é louca... Será que esta chapada...?”
- Escute... é tarde e eu preciso levantar cedo. Às seis tenho que estar de pé. Tem navio no porto.  E outra: No motel... só pra conversar...???
Sentia-se desconfortável. Um verdadeiro martírio. Nunca havia recebido uma cantada assim, explícita. Nervoso, não tirava os olhos da calçada e dos retrovisores. Também, pudera: a picape parada a dez metros da casa da maluca. E mais: o pensamento nos conselhos do Raimundo enquanto ela desfiava seu rosário de desventuras: casamento fracassado, o marido não a procurava... Talvez até tivesse amante.
- Pode uma mulher como eu ser rejeitada? Seja sincero.
- Não! Claro que não. Não, é claro!
- Com o corpo todo durinho... Olhe só...
Disse isso enquanto pegava a sua mão e a colocava no seu busto. Ele pirou “Isso não pode estar acontecendo comigo... merda, todo mundo já disse isso”.
Ele colocou a ponta do dedo  em seu peito esquerdo. “È mesmo... Que coisa, né?”
                                                                                                                                                  

-“ Você esta brincando!”  Falou ela abrindo a blusa devagar, os seios saltando, melhor, saltitando à sua frente.

- Ainda não deu sua opinião sobre meus seios... 
- São maravilhosos, mas...
- E gostosos! Teca fechou os olhos, puxando sua cabeça em direção ao peito.
- “...tô morto”, pensou,  enquanto  manobrava o carro e partia à caça de um motel.
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Ela foi ao toalete. Ryd sentado no canto da cama, de cuecas, uma tremenda dor de cabeça, misto de tesão e cagaço. Mais cagaço.
- O que foi? Esfriou? Perguntou ela ao sair do banho.
- Você havia dito que a Silvia merecia ser feliz... Isso estaria incluído?
- A minha amiga que me perdoe mas eu também mereço um pouco de alegria...  Terminou a frase já enganchando sobre ele.
E ele?  Ele, nada. Brochada federal. Veio o conforto: “Isso acontece... não esquenta...”  Ele levantou, foi ao banheiro e tomou uma ducha fria. Não resolveu o problema de todo. Só meia bomba,  45 graus, suficiente para um desempenho, como direi,  sofrível.
Despidos e recostados à cabeceira da cama, amargaram uma silenciosa frustração. Alguns minutos de aparente quietude e, de repente, no escuro do quarto notou quando ela pegou a bolsa e retirou alguma coisa que brilhava. Ao virar-se  pode confirmar: uma pequena pistola, cromada. “Merda, isso não pode estar acontecendo...”  (É a segunda vez que falo isso... um clichê).
Naquele momento, lembrou da Silvia, da mãe, dos filhos, do cachorro e, principalmente, do Raimundo. “Pô, Raimundo, você errou... Não é o marido quem mata, é a própria ...”.
Os pensamentos foram interrompidos pelo desabafo:
- Hoje, acabo com tudo...
A pistola apontada para o umbigo dele. Sem tirar os olhos de seu dedo indicador, tentava manter-se tranquilo, falando calmamente.
- Cuidado, Teca... Isso pode matar alguém...
- Não creio. Pode agredir alguns órgãos mas não mata...
Dito isto, apertou o gatilho e ele deu um salto. Na verdade, não foi bem um salto, foi um solavanco; mas não ouviu o estampido. Ao invés do projétil saiu uma pequena chama que ela levou até o cigarro.  E continuou com a lamúria:
- Hoje tomo coragem e acabo com esse casamento fajuto.
- Graças a ...
- O quê ?
- Graças a Deus você tem cigarros...]
- Iche.. .cê disse que não fuma...
- Não sei porque mas agora me deu uma puta vontade de fumar...

O filtro de barro...?  Que pena!  No quebra molas, na saída do Motel, trincou de cima a baixo.

                                                                           ---- ---- ----
JPC                                                                          

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