terça-feira, 25 de junho de 2013




À MARGEM DO RIO EUFRATES - CRÔNICAS

07
IRAQUE  - CURIOSIDADES

Situado no médio Oriente, o país  é limitado ao norte pela Turquia, a leste pelo Irã, ao sul pelos Golfo Pérsico, Kuwait e Arábia Saudita e a oeste pela Jordânia e Síria. No   território atual do Iraque teve início a civilização  Suméria, a  mais antiga do mundo, por volta de 5.000/6.000 A.C.  Foi lá também que com o aparecimento da escrita surgiram os primeiros registros históricos.  Daí o Iraque ser considerado  berço da civilização mundial.
A maior parte do país é desértica,  sendo que  as regiões próximas  aos rios Tigre e Eufrates propiciam a agricultura. Os principais produtos de exportação são o petróleo e as tâmaras.

BAGDÁ -  O nome   é  pré-islâmico e suas raízes  não são conhecidas. No entanto, supõe-se que a origem do nome “Bagdá” seja um composto linguístico do persa médio Bag “deus” e dad “dado” ou seja,  “dado-por-Deus” (*).
A cidade foi fundada em 762 pelo califa abássida  al-Mansur e tornou-se uma das cidades mais esplendorosas do mundo. Foi destruída pelos mongóis em 1258 e disputada durante séculos por turcos e persas. Em 1638 tornou-se parte da Turquia e em 1917 foi ocupada pelo exército inglês. No ano de 1920  transformou-se em  capital do Reino do Iraque,  sendo capital do país e da província.
A população era (antes da guerra com os EE.UU.) estimada entre 5 a 7 milhões de pessoas. 

Samarra -  Situada na parte central do país, a leste do rio Tigre  e a noroeste de Bagdá, já era habitada no 6º século a.C.   O monumento mais famoso da região é a grande Mesquita com  seu minarete  em forma de espiral. 
                           
               TORRE DE SAMARRA

Babilônia -  Situada a 90 km ao sul de Bagda. Foi lá que no período mais brilhante da civilização mesopotâmica  surgiram  as leis escritas mais antigas: o Código de Hamurabi  famoso rei, legislador e reformista social . Lá  estão gravadas as leis,  na época, vigentes, mas de origens também mais antigas. Ali estava escrita, inclusive,  a Lei de Talião “olho por olho, dente por dente”. 



                                     PORTAL DA BABILÔNIA

                        
                          LEÃO DA BABILÔNIA



Nabucodonosor, o Rei (605 – 563 a.C.), a reedificou, fez novas fortificações e construiu os Jardins Suspensos.  A Babilônia chegou a ser a  maior e mais bonita cidade do seu tempo.  



     PALÁCIO DE NABUCODONOSOR


                                                                  
Abássida -  Referente a dinastia dos abássidas composta de califas descendentes de Al-      Abbas, tio do profeta Maomé (Mohamed).

-Torre de Babel – A localização da lendária construção teria sido na planície entre os rios Tigre e Eufrates, uma região estrategicamente boa por ser muito fértil. Nada a ver, como muita gente pensa, com a Torre de Samarra,  feita em espiral.

Ctesiphon – (Pronuncia-se Tesifón).  Situada a leste do rio Tigre,  a 35 km de Bagdá, foi uma das grandes cidades do Império Persa, e  sua origem remonta ao século II a.C.; no século 6º  foi considerada a maior do mundo. O “Arco de Ctesiphon” faz parte do Palácio Branco, agora quase totalmente destruído. Trata-se de um imenso arco  com mais de 36m de altura, 25m de largura (o vão entre os muros esquerdo e direito), por 50m de comprimento –vão livre- sem nenhuma estrutura de sustentação. Do tipo abóboda Persa foi o maior já construído


        ARCO CTESIFON





MEUS 3 FILHOS E MAIS 2 AMIGOS, TENDO AO FUNDO O ARCO DE CTESIFON.

Conta a lenda que sendo perguntado sobre o destino da biblioteca do Palácio, o califa Umar ibn al-Kattab, teria  respondido: “Se os livros contradizem o Alcorão, são blasfemos. Por outro lado, se estiverem de acordo, eles não são necessários”. Todos os livros foram queimados ou jogados no rio Tigre.

- Heet – Pequena cidade, próxima ao Acampamento Km 215. Na rodovia rumo à Bagdá, ao passar por Hit sentia-se cheiro de óleo  ou enxofre, e era possível ver  à beira da estrada, brotando a olho nu,   pequenas poças  negras como petróleo. Creio que era o próprio.


- Roda d’agua – Na cidade de Hana havia uma roda d’água instalada no rio Eufrates; com aproximadamente 3.000 anos  ainda funcionava (pelo menos até 1984).   –
                                                                            Continua...
                          ARCO DE CTESIFON

                                               MEUS FILHOS, MAIS DOIS AMIGOS, COM O ARCO DE CTESIFON AO FUNDO..
                                                 TORRE DE SAMARRA
                                                    PORTAL DA BABILÔNIA
                                            LEÃO DA BABILÔNIA
                                               PALÁCIO DE NABUCODONOSOR

À MARGEM DO RIO EUFRATES -    CRÔNICAS

-06-
A CORDIALIDADE IRAQUIANA



Vez ou outra, nos fins de semana, saíamos do Acampamento, caminhando pelos arredores,  observando os povoados vizinhos. Atravessando o Eufrates por uma ponte rústica  antiquíssima, alcançava-se uma  pequena aldeia. Ali podíamos ver casas feitas de barro assemelhando-se às nossas casas caipiras, de pau-a-pique. No quintal  crianças sorridentes, cabritos e galinhas.

Certa tarde, voltando  da caminhada,  adentramos um povoado e para nossa surpresa fomos, eu e família, gentilmente convidados por um morador a entrar em sua casa.  E foi o que fizemos: Sentamo-nos em almofadas no tapete da sala e ancorados  na mímica e  troca de sorrisos, fomos servidos de maia e chai.  Ficamos um longo e agradável  tempo conversando:

-  “Ana brasili mas esta filha aqui tem nome árabe: Samira”.
- “Samira? Samira?!” Admirados,   a conversa destravou e seguiu animada com os recursos possíveis: aqui uma palavra em inglês, ali outra  em português  e mais adiante uma em árabe;  e assim, entre silêncios e sorrisos, as emoções eram transmitidas, com base na mímica, deduções, olhares e tom de voz.  

Lá fora, no quintal, as crianças ignorando diferenças étnicas e  idiomáticas  se divertiam correndo atrás de cabras e galinhas.

Antes das despedidas  a dona da casa ainda trouxe uma bandeja com coalhada de leite de cabra,  pão, tâmaras  e ...mais chá. O chá equivale  ao nosso cafezinho  oferecido  às visitas.

Uma casa humilde.  Uma família  cordial. Uma tarde para não esquecer.


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Maia : Água
Chai : Chá
Ana brasili:  “Sou brasileiro”.


                                                                        Continua...
                     RUÍNAS, NA BEIRA DO RIO EUFRATES.

À MARGEM DO RIO EUFRATES  -  CRÔNICAS


-05-

KM 215 – ACAMPAMENTO CENTRAL


Inicialmente a obra teve três grandes acampamentos: Km 30 (a trinta km de Bagdá). Km 215 (Acampamento Central) e o Km 350 (ponto mais avançado na ocasião). O Km 215 era o principal: localizado de modo privilegiado, numa linda curva à margem direita do Rio Eufrates  (Foto)  contava com excelente estrutura: Residências, Escritórios de Administração, Supermercado, Hospital, Clubes (2), Hotel, Central de TV (circuito interno), Corpo de Bombeiros, Colégio,  Estação de Tratamento de Água e outros.

As residências eram formadas por contêineresimportados de Houston, Texas- acoplados  e podiam ter 1, 2 ou 3 dormitórios, de acordo com a família do funcionário.   Eram dotadas de todo o mobiliário: do aparelho de ar-condicionado ao abridor de garrafas, e distribuídas somente aos casados. Os solteiros ficavam em alojamentos  também providos de regular conforto ou dependendo do cargo e/ou graduação ficavam hospedados no hotel do Acampamento.

O Supermercado era razoavelmente bem abastecido podendo-se  encontrar desde feijão preto até aguardente; também vinhos franceses e carne da Austrália; verduras e legumes,  alguns da própria horta cultivada à beira do  rio. As compras eram pagas através carnês –tíquetes- havendo limites de acordo com o cargo do funcionário.

Do salário, recebíamos cerca de 25%; o restante vinha para o Brasil e creditados em  contas-correntes bancárias. Esses 25% eram suficientes para a alimentação, pequenas compras no comércio local e algum gasto extra.

Referente à  área de saúde havia um hospital, com dois médicos, e enfermagem; exames clínicos, laboratoriais, RX, exames odontológicos e  até internações. Somente  casos graves ou cirúrgicos eram enviados à capital ou, em situações extremas, enviados ao Brasil. Nas frentes de serviços  -pontos avançados acompanhando a obra-  haviam Postos Médicos.

Quanto à educação, a cargo do  Colégio Pitágoras, de BH,  só elogios; com excelentes professores oriundos de Minas Gerais foi considerado  o ponto forte do Acampamento Central, tornando-se referência e centro das atividades da criançada. Funcionava em tempo integral, participando das diversas campanhas promovidas, como prevenção de acidentes no trabalho, em incêndio e no trânsito.

Para exemplificar o grau de excelência:  Se fosse preciso punir,  disciplinarmente, algum filho o castigo era “não ir a escola no dia seguinte...”

Para o  lazer tínhamos dois clubes com piscinas, quadras poli-esportivas, campo de futebol, cinema, etc., com frequentes atividades esportivas, torneios de  natação e outros. As festas de Natal e  Ano Novo eram comemoradas naturalmente e até no Carnaval os Clubes promoviam bailes e alguns blocos  ousavam desfilar pelo interior da vila, sem nenhuma restrição ou qualquer tipo de censura. O Acampamento Central era o nosso Brasil.

                                Vista parcial do Acampamento Central
                        BLOCO DE CARNAVAL NO ACAMPAMENTO
                   (O de camisa do Flamengo -tocando bumbo- sou eu).
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                     PROGRAMA NA TV, SOBRE SEGURANÇA DO
                  TRABALHO                              


Tínhamos também uma Central de TV, com Circuito Interno, programação própria com noticiário sobre a obra, eventos, notícias do Brasil, e até novelas da GLOBO, além de filmes e principais programas vindos do Brasil, como Copa do Mundo, Campeonatos de Futebol e Carnaval. Às sextas-feiras (domingos) um Padre, residente em Bagdá, vinha ao Acampamento rezar  missa,  assim como um Pastor Evangélico –contratado pela empresa- comparecia para realizar suas pregações.

Também às sextas-feiras tive a grata experiência de apresentar um programa de TV, cujo tema era Prevenção de Acidentes,  onde mostrava as diversas frentes de trabalho e suas peculiaridades relativas à Segurança do Trabalho.

Funcionários de nível superior ou com cargos diferenciados usavam  carros da empresa,  na maioria FIATs brasileiros e era possível, nas folgas, viajar pelo país sem nenhum problema: os brasileiros eram muito queridos e  além do mais a gasolina era baratíssima, quase de graça.

Muitos de nós, durante períodos de  férias e no retorno definitivo,  viajamos a países europeus e do Oriente Médio. A oportunidade de conhecermos outros países foi o  motivo  determinante  na  decisão de irmos trabalhar no Iraque.

                                 
                                                                         Continua...



                                 O meu filho com colegas frente à casa.
Torneio de Natação no clube.
                                                As filhas brincando de teatro
                                                 Bloco de Caranaval na Vila Residencial








segunda-feira, 24 de junho de 2013


Os 3 filhos diante do Museu de Bagdá.
À MARGEM DO RIO EUFRATES - CRÔNICAS
-04-

RUMO AO DESCONHECIDO

No momento estamos num ônibus atravessando a capital do país em direção a ponte que cruza o Rio Tigre, para dali rumar ao deserto. Termina aqui o dolce-far-niente que durou uma semana. Foi muito bom o longo descanso após o vôo de 27 horas. Interessante foi também passear a pé e de ônibus de dois andares (reminiscência inglesa) pelas ruas de Bagdá, observando mesquitas e monumentos; Importantíssimo visitar o Museu de Bagdá,  perambular por becos com seus inúmeros souqs de tapetes, samovares, narguilês e tantas outras curiosidades, entre gritos de oferta dos mercadores; o colorido das tendas; o cheiro de ervas e sementes exóticas, revisitando  um tempo, remoto, de minha infância: Shaharazade, As 1001 noites  ou  O ladrão de Bagdá.

Do grupo que seguiu  (mestres-de-obras, oficiais carpinteiros, encarregados, técnicos de mecânica e uns poucos de área administrativa)  o único que tinha noções da língua inglesa era este pobre narrador. Portanto, nesses dias que permanecemos em Bagdá tornei-me, de modo circunstancial, o pseudo-intérprete da turma. Pequenas necessidades como pedir batata frita, uma cerveja, procurar um toalete, essas coisas, deu tudo certo e salvaram-se todos. O Iraque fora colonizado pela Inglaterra, daí a maioria da população ter conhecimento do idioma bretão. Contudo, tal privilégio ficara restrito às principais cidades; no interior do país o conhecimento da língua não atingiu, como sempre, os mais humildes.

Sentado na poltrona mais próxima ao motorista, tentei por várias vezes iniciar alguma conversação, tipo quantos quilômetros faltam? como é o seu nome?, nada. Só através de mímica. O piloto, do alto de sua sabedoria milenar, vestido de dasdacha e de hatta brancos, era só sorrisos –menos mal. Entretanto, no receptivo sorriso exibia raríssimos dentes, o que era motivo de risos e molecagens  no interior do ônibus.

Encarando o asfalto precário, o valente ônibus avançava deserto adentro, enquanto nós, audaciosos  pioneiros, cochilávamos embalados pelo sacolejar do veículo e um modorrento calor. Durante o trajeto paramos duas ou três vezes para esvaziar bexigas e forrar o estômago com tâmaras, amoras e melancias docíssimas além, claro, de muita água.

 Entardecia e o por de sol incendiava o céu.

Era quase meia-noite quando chegamos ao destino, com o grupo reclamando da fome. Tivemos sorte em localizar  um funcionário, nosso conhecido de outra obra da Mendes, no Brasil,   responsável pelo pequeno acampamento.   Aberta a cantina,  foi  servido um improvisado lanche. A nosso convite, o banguela e sorridente motorista lanchou e despediu-se com muitos chukrans e outros tantos salamaleques (mesuras trazidas  ao Brasil pelos primeiros imigrantes árabes, os"turcos").  Posteriormente iria descobrir que naquela época, por não termos relações diplomáticas com certos países árabes, os imigrantes  tinham que passar pela Turquia,  recebendo o carimbo turco em seus passaportes. Por isso popularizados  como turcos.

Hora de dormir. Antes, porém, fiz estas anotações. Eu me encontrava extremamente cansado, mas feliz; afinal, o desconhecido sempre me fascinara.



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Souk:  Mercado de tapetes, objetos de metais, roupas, etc.
Dasdacha: Túnica comprida
Hatta: Turbante
Chukran: “Obrigado !”
Salamaleque: Corruptela de “Salam Aleikum” (Deus -ou a paz- esteja convosco !)



                                                                              Continua...



À MARGEM DO RIO EUFRATES - CRÔNICAS


-03-

AINDA BAGDÁ –  À ESPERA DE TRANSPORTE



Bagdá, trinta  de agosto de 1979, 15:00 horas, 46 graus. Bem alimentados e  descansados estamos, todos os trinta e dois homens, com as bagagens empilhadas no hall do hotel, aguardando a condução que nos levará até Ramadi, principal cidade da Província de Al Anbar, no Oeste do país.

Lá fica o escritório  provisório  da empresa, ponto de apoio para a construção do Acampamento Central da grande obra. A  obra, uma ferrovia com cerca de 600 quilômetros, sairá de Bagdá e após cruzar a Província de Anbar atravessará o imenso deserto seguindo  rumo a Al Caim e depois Akashaf, no Oeste, fronteira com a Síria. Uma gigantesca estrada de ferro que custará cerca de US$ 1,3 bilhão aos cofres do governo iraquiano.

A Mendes  Jr. construiria também mais duas obras: a rodovia –“expressway”- de Bagdá à Amã, capital da Jordânia, e mais o Projeto Sifão, uma estação de bombeamento do Rio Euphrates, no centro da capital.  A turma que segue comigo chega  para edificar todo o acampamento central.

O Acampamento Central, fica situado no Km 215 ou seja, a 215 Km de Bagdá, plantado, depois de uma curva, à margem direita (montante) do  Rio Eufrates.  Este lendário rio nasce na Turquia, atravessa a Síria e corta o país iraquiano, indo em direção ao Golfo Pérsico que os árabes, compreensivelmente, insistem em chamá-lo de Golfo Arábico. O Rio Tigre  segue quase paralelo ao Eufrates, seu velho parceiro.

O Acampamento abrigará não só as residências dos funcionários brasileiros como também as instalações de apoio, tais como oficina central, escritórios, hospital e demais setores que atenderão o lado funcional  no desenvolvimento da obra, oferecendo todo o apoio logístico. Esse grande acampamento contará com  a estrutura  necessária para manutenção e fixação das famílias. Desse modo, o Km 215  tornar-se-ia  uma pequena colônia brasileira devendo, no pique da obra, acomodar cerca de 6.000 mil brasileiros; mas esse assunto será objeto de futuras narrativas.                                                                 

Agora, 16:00 h, chega o micro-ônibus e lá vamos nós rumo ao deserto; rumo ao desconhecido.

Inshalá ! (Seja o que Alá quiser!).


 Obs.- Crônica escrita durante o percurso.