domingo, 2 de junho de 2013

DO MORRO DA GUIA...

13 – BUENOS AYRES –  CANAL 7

Desde o momento em que acordamos  ensaiamos uma só música: “Ogum Nhê” que só  o Carlão conhecia. Betina e família fazendo o controle de qualidade. Às 10:00h dirigimo-nos ao Canal 7, Tv LS, de Buenos Ayres. Contatamos a produção do programa mostrando o nosso Livro de Viagem, carteiras da Folha dos Lagos, etc. e pedimos dispensa da fila de inscrições, afinal iríamos partir no dia seguinte. Diante de nossa insistência e do charme de nossa amiga, o diretor concordou. Iria nos dar uma chance. No estúdio, nos sentamos no meio de uma galera de candidatos e ficamos sabendo que o programa funcionava da seguinte maneira: qualquer um da plateia podia ser chamado, aleatoriamente, para cantar. (Nós, porém, estávamos previamente selecionados). A gravação inicia (minhas pernas tremiam sem parar...) e um senhor foi chamado e  subiu ao palco; ao terminar o seu tango, foi aplaudido razoavelmente e ficou de lado. Houve um comercial e em seguida fomos convidados. Chegara a nossa vez.

Frente às câmeras o apresentador nos perguntou sobre a viagem, as dificuldades, metas, etc. De repente, a pergunta “E o dinheiro para a viagem...? Parecia combinado pois respondemos em coro: “Viemos buscar aqui...!” Toda a plateia riu e eu pensei cá comigo “Ganhamos a rapaziada...” E a quem vão dedicar a música? Perguntou o Jorge Galã ( o animador).  O Lauro, rápido no gatilho mandou: “À amizade argentino/brasileira e a esse público maravilhoso”. Mais aplausos.

Vamos lá:      “Segura esse samba, não deixa cair...
                        Ogum Nhê, Ogum Nhê...”
O Carlão no mini-tambor, Lauro no tamborim e eu no pandeiro. Nós dois  ainda improvisamos uma coreografia meio maluca mas que deu certo.  Um sucesso. A plateia vibrava e aplaudia de pé. Diante disso o apresentador chamou-nos de volta ao palco e tivemos que repetir.  De novo, ovacionados, quase histeria. Depois de nossa apresentação entraram mais quatro candidatos. Após os comercias, o resultado:

- Vencedor:   LOS MUCHACHOS BRASILEÑOS !
Voltamos ao palco e além de beijos das belas assistentes, ganhamos  uma caixa de vinho, medalhas e o vale de 10.000 pesos. Além das congratulações fomos agraciados com uma senhora macarronada, regada a “Don Raul”, o vinho do prêmio. O vale não era em moeda sonante e sim para trocar por mercadoria em uma casa de modas, onde escolhemos 3 blusas de caxemira.
                                                                                                          Continua...





















DO MORRO DA GUIA...

12 - ARGENTINA

Minutos depois de carimbar os passaportes, estávamos do outro lado. Outra vez pusemos em dia os documentos e mal descemos as escadas da Aduana, subimos numa picape que nos deixou a 15 km adiante, numa bifurcação. Dali tentaríamos chegar à capital portenha; faltavam exatos 1.330 km.  A sorte nos acompanhava. Caminhamos uns 3 km e uma caminhonete nos ofereceu carona. Eram 12:30h. Viajamos na carroceria por uns bons quilômetros, passando por diversas cidades do nordeste argentino: Clorinda, Formosa, Resistência, Reconquista, chegando em Santa Fé após percorrer 848 km. Nesse ponto, o dono do carro foi para um hotel e nós em direção a uma praça, onde dormimos num coreto. Lá coloquei em dia as anotações do Diário.
Amanhecia. Abraçamos o Itapuy e lhe desejamos sorte; seu rumo era Córdoba. Um bom rapaz, educado e muito gentil. O seu sobrenome explicava: Menna Barreto. De longe o avistamos –esguio e com cabelos escorridos- subir num lotação, falar algo no ouvido do condutor e este, assentir com a cabeça. Sabíamos o que havia falado.
No Automóvel Club Argentino, enquanto aguardávamos o dono da picape, o Lauro e Carlos ganharam um litro de leite num caminhão que fazia entrega do produto. Eram 06:00h e o dono do carro chegou e nos aboletamos na cabine pois o seu companheiro havia ficado na cidade. Fomos narrando a nossa viagem para o motorista que era advogado e mais adiante paramos para, a seu convite, lanchar. Chegando em Rosário, grande centro industria, fizemos outra parada para o almoço. Continuamos, direto, até à 17:00h quando alcançamos a capital da Argentina. Lá se foi outra etapa. Esta havia sido a mais longa carona: 1.330 km,  em 29 horas.
Na periferia da cidade, tomamos o metrô (a primeira vez, na vida, que andamos de metrô...) e depois um trem comum e chegamos no bairro de Longchamps. Localizamos o endereço de Betina, uma antiga namorada que estivera em Cabo Frio, e se hospedara em minha casa. Chovia e fazia um pouco de frio. No bar vizinho conhecemos uns rapazes que, empolgados com a nossa aventura, patrocinaram unas copas de viño. Voltamos à casa de Betina: a melhor receptividade. Batemos um longo papo aquecido com mais viño e lanchamos. Pareceu-nos que seus pais estavam acostumados com mochileiros pois nos receberam com muito carinho.
5ª Feira, 03/10. Continua chovendo. Após o café, saímos para comprar alguns artigos de camping para neve. Explicando: Lauro e eu trouxéramos algum dinheiro escondido no fundo da mochila, especificamente para comprar sacos de dormir que seriam úteis na Cordilheira dos Andes. Durante o almoço vimos um programa de TV, Canal 7, intitulado “Se lo sabe, cante”, frequentado por jovens. Os vencedores seriam eleitos pela plateia e o prêmio, uma importância de 10.000 pesos (NCr$-100,00) aproximadamente, mais 10 litros de vinho e medalhas; uma agravante: seria para o dia seguinte. “Então é pra já”, pegamos os instrumentos e começamos o ensaio.




CONTO

PRESENTE DE NATAL, ou
( Vaca, palpite para o Natal)

Vitrines cheias de tentações fazem  o que podem para atrair passantes nesse fim de ano repetitivo no comportamento geral. Gente e mais gente nas ruas, calçadas, galerias, portas de lojas, butiques, não importando a  inflação, pois é Natal que chega e enquanto os homens não retirarem as marquises... pivetes e mendigos continuam, fraternalmente ou não, dormindo nas calçadas.
Toda a gente olha-olha, escolhe-escolhe, na intenção de adquirir algo para alguém forrar a mesa, maquiar o rosto, enfeitar a parede, sua ou da amiga ou da mãe;  para os pés do pai, a cabeça do avô, o  esporte do filho, o balé da neta, o quarto da amante. É tempo de presentes: dar e receber.
Telmo, pastel na mão, olhava também as vitrines, os mostruários, os camelôs, o povo, devagar, na calçada atrapalhando os que vão ao trabalho; falar em trabalho Telmo desvia o olhar para dentro de si lembrando só poder mesmo espiar ofertas e fazer os sempre-planos. Mas quem poderia imaginar ...logo eu, bom datilógrafo,assíduo, entraria no corte de pessoal, seis meses procurando emprego no limiar de sonho e desespero?
O pensamento era veloz.
Faremos uma ceia, tão bom peru com pêssego, farofa com passas , presunto, aquele do apito que avisa quando esta assado, castanhas e nozes e tenho que parar de sonhar: frango com batatas, rabanadas com açúcar é mais barato. Não, um vestido novo para Maria Rita, uma blusa dessas coloridas escrita em  inglês, sandália, quem sabe?
Frente aos chamarizes analisa preços e compara necessidades e dúvidas. Comprar bosta nenhuma, guardar o pouco que resta até quando só Deus sabe, idiota, que Natal esmerdalhado, este!
Em casa, Maria Rita ex-industriária, ex-bonita, atual lavadeira boa de tanque, na máquina de costura com prestação atrasada -minha Nossa o SPC- reaproveitando roupas surradas, extraindo do almoço invenções pra janta. Sem filhos e com muitas lamentações por não ter dado um menino que nem o pai, bom de cama e de bola, ou de menina de tranças, já não havia preferência depois de tantas esperas inférteis, afinal a sensata compensação mostrava que na fase negra atual era melhor assim...
Telmo cuspiu o caroço de azeitona, atravessou a rua, fez uma fé na loteria, jogou vinte e cinco  pratas na vaca -palpite no 25 de dezembro- "perder a esperança nunca, sou brasileiro" -e era bobinho- e quem sabe será o meu presente?  Ainda com o papel  do bicho na mão, em sua frente uma mocinha precocemente velhinha, criança nos braços pede-lhe dinheiro, não tenho trocado, pô!  Encostada à porta da loja, olhar distante/descrente, de súbito cambaleia dobra os joelhos em queda iminente. Arisco, ele procura ampará-la e ao mesmo tempo segura a criança que não chega a cair ao solo. Num pedaço de cobertor, olhos fechados, sono sereno, nem se dá conta ser alvo de atenções, enquanto a jovem  rapidamente levanta-se e corre para o lado oposto da rua, calçada a fora, a esquina, o mundo.
Perplexo, entre assustado e indeciso, Telmo olha o rosto recém nascido, sorri timidamente perguntando-se menino ou menina, em casa descubro, agora é comprar presentes, decide-se: pacote de fraldas e dois sapatinhos de lã.  Um azul outro rosa.

JPC

BARCAÇA TRANSPORTANDO SAL.  Provavelmente, por Wolney Teixeira,  na década de 1960.

sábado, 1 de junho de 2013

DO MORRO DA GUIA...

11 – AINDA ASSUNCION

De outra feita aconteceu uma cena interessante e para entendê-la é preciso que falemos um pouco do personagem principal: Robert. O americano Bob tinha cerca de 1,90m de altura por 2,00m de circunferência. A barba ruiva chegava-lhe ao peito e usava o cabelo tipo rabo-de-cavalo. Altivo e pacifista. Fugira do chamado compulsório para a guerra do Vietnã e sua família, abastada, enviava-lhe dinheiro quinzenalmente. Há um ano  e meio viajava pelo mundo. Uma figuraça. Vamos à cena: Estando diante uma vitrine, não sei vendo o quê e nem o porquê, juntou uma pequena multidão ao nosso redor. Olhares e comentários sussurrados, até aí tudo bem. Mas havia um senhorzinho, bigodinho pintado, mirando  o Bob e rindo às gargalhadas. Então, o nosso amigo tocou com o dedo em seu ombro e perguntou com o seu jeito educado:
- Por favor, señor... cuantos años tiene Usted?
- 49 años...  responde o homem com um largo sorriso.
- Oh! Muy estúpido para su edad...   Disse o Bob com ar penalizado.

Dia seguinte: Pela manhã encontramos um brasileiro, empresário. Falou uma meia-hora sobre ele próprio e seu sucesso no comércio. Prometeu vários tipos de suporte para nós, embora tivéssemos deixado claro que, naquele momento, o que queríamos era uma carona até Buenos Ayres. Sabíamos que havia uma empresa de transporte fluvial que levava madeira para a Argentina pelo rio Pilcomayo. OK. Combinou local e hora para o encontro, pois iria resolver a questão. Mesmo desconfiados com o tipo, chegamos ao lugar combinado, às 10 horas. Você apareceu? Nem ele.
Saiu a reportagem no jornal ABC Color com a manchete UM RAID A DEDO (de carona), trazendo uma  foto nossa. Nessa noite conhecemos uma jovem com jeitão carioca. Espontânea e amável; fomos à sua casa e lá ficamos um longo tempo, tomando chá com torradas (...também tomávamos chá!) e ouvindo músicas brasileiras, matando a saudade.  Dia seguinte, partiríamos rumo a Argentina.
Despedimo-nos do grande –literalmente- Bob que iria para a Bolívia. O Itapuy seguiria conosco um pouco mais.  Saímos às 10 horas do centro de Assuncion. Às 11h estávamos diante do rio Pilcomayo que divide o Paraguai da Argentina.  Depois de uma boa conversa com o piloto da barca, logramos a cortesia da travessia.

                                                                                                                      Continua...



DO MORRO DA GUIA...

10

ASSUNCION. Cidade bonita, limpa, casas luxuosas, embora um pouco sem sal. Não sendo colonial, mostra arquitetura meio indefinida. O povo é trabalhador mas observamos viver de cabeça baixa. Oprimido? Não deu para descobrir e nem era o objetivo. Nas ruas, éramos olhados de maneira estranha e até assustadora. Seria pelas barbas ou cabelos compridos? Pode ser que sim.  Nesse mesmo dia, pela manhã, chegaram e ficaram hospedados mais dois andarilhos. Robert, norte-americano e Itapuy, brasileiro. Juntamo-nos e saímos passeando pela cidade, alheios aos olhares curiosos e assovios provocativos. À tarde, seguindo conselho de um dos dirigentes da ACJ procuramos o cônsul brasileiro. O homem era carioca e ainda conservava o espírito da terrinha. O Consulado não poderia nos conseguir qualquer atividade e por isso, ofertou de seu próprio bolso uma nota de 500 guaranis.  Com  a auto estima elevada nos dirigimos ao endereço do Embaixador, quem sabe... Resultado: mais 500 guaranis.  Depois do almoço num pequeno restaurante, regado a vinho barato  visitamos uma menina –muito interessante, por sinal- que conhecêramos casualmente na rua. Permanecemos em sua casa até o anoitecer ouvindo-a tocar harpa. Além de clássicos tocou a nosso pedido um par de  guarânias,  a música típica de sua terra.
Era Domingo, 29/09. A ACJ não abria e por isso ficamos zanzando nas ruas. Nós cinco. Descobrimos que grana demais atrapalha...! Surgiu uma pequena dúvida: Não sabíamos se economizávamos ou gastávamos o dinheiro numa boa farra...Ora, ora!
Na hora do almoço (força de expressão pois não tínhamos horário certo pra nada) saímos para comprar frutas,  alguns legumes e pão. Já perto de um mercado avistamos, numa calçada, uma senhora cozinhando algo. Nos aproximamos: arroz, carne,  macarrão e pão, servidos tipo PF. Em volta do panelão, muita gente. Preço: 20 guaranis. Nem confabulamos, sentamo-nos todos na calçada.  Era um ambiente deveras democrático: bêbados virados da noite, estudantes, desocupados, caipiras e agora nós, andarilhos. O Robert comprou duas garrafas de vinho –padrão razoável- copos plásticos e fizemos a roda. Cada um com o seu prato e a garrafa circulando de mão em mão.  E lembrar que dias antes almoçáramos em Cassino de Oficiais e em hotéis de razoável categoria.  Após o lauto almoço-de-cinco-talheres, como nada havia para fazer, continuamos o passeio pela cidade. De todos os lados, assovios. Os ônibus reduziam a marcha  ou paravam para nos olhar  e as pessoas, das janelas, diziam coisas ininteligíveis (em Guarani). Então combinamos: Quando os ônibus reduzissem a velocidade, subiríamos  para... passear. Que susto a pobre gente levava! Dentro do carro aquele silêncio de velório, as pessoas sussurrando e olhando para o teto... Algumas quadras diante  perguntávamos sobre qualquer  rua ao  motorista... que desconhecendo, parava o carro e nós  descíamos. Simples. Desse jeito –irônico- conhecemos grande parte da cidade.

                                                                                   Continua...



POESIA A ESSA HORA?

A oportunidade de cada um

Na madrugada agonizante
um casual despertar,
na janela aberta a ansiedade do sol
puro-sangue em hora de largada
impaciente por sua Oportunidade de vida.
O céu, imensa pradaria
todo flocos prata-dourados
lua anêmica, retirante resignada
flores inda sonolentas.
O respeito. Majestoso silêncio.

Bêbado de paz
agradeço aos deuses
por minha Oportunidade
e volto à cama menino.

JPC